Desigualdade de gênero no trabalho ainda desafia mulheres no Brasil, apesar de avanços
No mês em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, em 8 de março, o debate sobre igualdade de gênero no mercado de trabalho ganha ainda mais relevância. Apesar dos avanços registrados nas últimas décadas, as mulheres brasileiras ainda enfrentam desigualdade salarial, dificuldades para alcançar cargos de liderança e o peso da dupla jornada profissional e doméstica.
Especialistas apontam que fatores estruturais e culturais continuam limitando a plena equidade nas relações profissionais, mesmo diante do aumento da qualificação feminina e da presença crescente em áreas historicamente dominadas por homens.
A professora de Direito da Universidade Estácio de Sá e advogada trabalhista Andreza Molinário destaca que a participação feminina no mercado de trabalho evoluiu de forma significativa, mas ainda enfrenta entraves históricos.
“As mulheres estão mais qualificadas e atuando em funções que já foram apenas masculinas, como condução de transporte público, operação de máquinas pesadas e construção civil. Também aumentou a participação em cargos estratégicos e como empreendedoras”, afirma.
Segundo ela, porém, persistem barreiras estruturais. “O homem ainda representa a figura de provedor familiar, com ascensão mais facilitada, enquanto as mulheres encontram mais obstáculos para chegar à liderança e enfrentam a dupla jornada, sendo frequentemente as principais responsáveis pelo lar e pelos filhos”, explica.
A desigualdade salarial permanece como um dos principais desafios. De acordo com o 4º Relatório de Transparência Salarial e de Critérios Remuneratórios, divulgado em 2025 pelo Ministério do Trabalho e Emprego, as mulheres recebem, em média, 21,2% menos que os homens no Brasil.
Andreza Molinário observa que a diferença tende a ser ainda maior em cargos de gestão e em funções técnicas que valorizam a força física masculina. Em contrapartida, áreas com remuneração padronizada, como o serviço público e funções operacionais com pisos salariais definidos, costumam apresentar maior equilíbrio.
Outro fator que impacta a carreira feminina é a maternidade. Interrupções profissionais e a falta de políticas efetivas de retorno ao trabalho ainda dificultam a progressão na carreira, agravadas pela falta de transparência salarial e pela concentração histórica das mulheres em ocupações com menor remuneração.
No campo jurídico, o Brasil possui uma base legal considerada robusta para garantir a igualdade. A Constituição Federal do Brasil de 1988 assegura igualdade de direitos entre homens e mulheres e proíbe diferenças salariais por sexo. Já o Artigo 461 da Consolidação das Leis do Trabalho determina salário igual para trabalho de igual valor. Mais recentemente, a Lei nº 14.611/2023 passou a exigir que empresas com mais de 100 funcionários apresentem relatórios semestrais de transparência salarial.
“A legislação é suficiente, mas é preciso mudar crenças e atitudes que moldam as decisões corporativas. A efetivação de medidas pela igualdade deveria fazer parte das práticas empresariais”, avalia a advogada.
Entre as políticas recomendadas para reduzir a desigualdade estão planos estruturados de cargos e salários, critérios objetivos de avaliação, programas de retorno ao trabalho após licença-maternidade, flexibilização de jornada, trabalho remoto e práticas de compliance trabalhista com transparência nos processos de promoção e remuneração.
A especialista também cita avanços recentes, como a ampliação da autonomia feminina em decisões reprodutivas e o programa Emprega + Mulheres, que ampliou mecanismos de prevenção ao assédio nas empresas. Ainda assim, ela ressalta que essas medidas representam apenas parte do caminho necessário para enfrentar o problema.
“Apesar dos progressos, a desigualdade de gênero no trabalho ainda reflete raízes profundas da sociedade. Trata-se de um fenômeno estrutural e cultural que ajuda a explicar por que, mesmo com avanços legais e educacionais, o tema continua presente no debate público e nas estatísticas do mercado de trabalho brasileiro”, conclui.
Enquanto a equidade não se torna realidade, o 8 de março permanece não apenas como uma data de celebração, mas também de reflexão, mobilização e luta por transformações efetivas no mundo do trabalho.

