Pesquisador do LNCC aponta que dilemas da inteligência artificial são antigos e alerta para o poder das big techs
Em entrevista à BBC News Brasil, o pesquisador Bernardo Gonçalves, do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC/MCTI), propõe uma análise crítica sobre o entusiasmo contemporâneo em torno da inteligência artificial. Segundo ele, apesar da sensação de novidade trazida por ferramentas como ChatGPT, Gemini e Claude, muitos dos debates atuais — como a substituição de trabalhadores, a humanização de máquinas e o uso de chatbots como suporte emocional — já estavam presentes desde a origem do campo, na década de 1950. A reportagem, repercutida por veículos como G1, Folha de S.Paulo e Exame, ressalta que o aspecto realmente novo não está na tecnologia em si, mas na dimensão do capital investido e na concentração de poder político nas grandes empresas de tecnologia.
Gonçalves relembra a criação do Eliza, chatbot desenvolvido nos anos 1960 por Joseph Weizenbaum, que simulava diálogos terapêuticos e evidenciava a tendência humana de atribuir emoções a sistemas automatizados. O próprio Weizenbaum, ainda naquele período, alertava para os riscos de substituir relações humanas por interações artificiais. Para o pesquisador, o debate atual sobre máquinas que “acolhem” ou “compreendem” usuários retoma essas advertências históricas, agora potencializadas por impactos em larga escala.
O pesquisador também revisita o debate iniciado por Alan Turing, em 1950, sobre a possibilidade de máquinas pensarem, destacando que, desde então, diversos críticos da computação questionam o uso de metáforas humanas para explicar processos algorítmicos. Na avaliação de Gonçalves, essa confusão conceitual está ligada a disputas de poder e a mudanças estruturais no mundo do trabalho. Ele lembra que, nos anos 1940, o termo “computador” se referia a profissionais — em sua maioria mulheres — responsáveis por cálculos manuais, atividade posteriormente automatizada e apagada da narrativa histórica.
Ao analisar o chamado “inverno da inteligência artificial” nos anos 1970, período marcado pela frustração com promessas não concretizadas e pela retração de investimentos, Gonçalves identifica paralelos com o cenário atual, marcado pela polarização entre euforia e pessimismo. Ainda assim, destaca que o avanço da área hoje se sustenta em aplicações práticas e aportes financeiros expressivos. Entre março e junho de 2026, ele ministrará no LNCC o curso “GA-035 – Inteligência Artificial”, voltado a estudantes de pós-graduação em Modelagem Computacional, com o objetivo de discutir conceitos, fundamentos históricos, limites, fracassos e avanços da área, para além do discurso mercadológico.

