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Fim das bets abre debate sobre impacto no orçamento das famílias e no comércio de Petrópolis

A Medida Provisória nº 1.394, assinada na última sexta-feira (25), que proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa no Brasil, abriu também uma discussão sobre os possíveis efeitos da medida sobre o orçamento das famílias e a circulação de dinheiro na economia. A norma alcança as chamadas bets, incluindo apostas esportivas e jogos on-line.

Para a Câmara de Dirigentes Lojistas de Petrópolis (CDL Petrópolis), a mudança pode contribuir para que parte dos recursos atualmente destinados às apostas seja redirecionada para outras despesas das famílias, como consumo, pagamento de dívidas e recomposição da renda. O impacto, no entanto, dependerá de quanto desse dinheiro permanecerá efetivamente disponível nos orçamentos domésticos.

Segundo levantamento do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), as famílias brasileiras tiveram uma perda líquida de R$ 62,5 bilhões com apostas em 2025. O valor corresponde à diferença entre o total transferido para as plataformas e o montante devolvido aos apostadores em prêmios. No mesmo período, as bets movimentaram R$ 350,97 bilhões em transferências via Pix.

O cenário ocorre em meio a um elevado nível de endividamento das famílias. Dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) apontaram que 82% das famílias brasileiras estavam endividadas em agosto, mantendo o indicador no maior patamar da série histórica.

Petrópolis pode ter cerca de 63 mil apostadores no universo potencial

Em Petrópolis, uma projeção baseada em levantamento do Instituto Fecomércio de Pesquisas e Análises (IFec RJ) ajuda a dimensionar a presença das apostas on-line entre os moradores. A pesquisa identificou que 22,7% dos entrevistados da Região Metropolitana do Rio de Janeiro já haviam participado de apostas pela internet.

Aplicando essa proporção à população estimada de 278 mil habitantes de Petrópolis, chega-se a um universo potencial de aproximadamente 63 mil pessoas. O número é uma projeção, e não uma contagem de moradores da cidade que efetivamente apostaram.

O levantamento do IFec RJ, realizado com 1.024 pessoas entre 22 e 25 de junho de 2026, estimou em R$ 2,2 bilhões por ano os gastos com apostas on-line na Região Metropolitana do Rio. O estudo também apontou gasto médio anual de R$ 1,2 mil por apostador.

Para o presidente da CDL Petrópolis, Cláudio Mohammad, a redução dos gastos com apostas pode abrir espaço para outras destinações dentro do orçamento familiar.

“Para o comércio, isso representa a chance de o dinheiro voltar a circular na economia real”, afirma.

Segundo a entidade, porém, a interrupção dos gastos com apostas não significa automaticamente recuperação do poder de compra. Parte dos recursos pode ser utilizada para quitar dívidas, recompor reservas ou atender outras necessidades financeiras das famílias.

CNC aponta impacto das apostas sobre o varejo

Outro levantamento citado pela CDL Petrópolis é da CNC. A entidade estima que os gastos dos brasileiros com apostas on-line cresceram mais de 500% entre janeiro de 2023 e março de 2026, período em que o volume mensal ultrapassou R$ 30 bilhões.

Ainda de acordo com a CNC, a inadimplência associada às apostas retirou R$ 143 bilhões do comércio varejista entre janeiro de 2023 e março de 2026. O estudo estima também que cerca de 270 mil famílias podem ter entrado em situação de inadimplência severa, caracterizada por atrasos superiores a 90 dias.

Os números são estimativas da entidade e fazem parte de um estudo que relaciona o comprometimento da renda das famílias com as apostas e seus efeitos sobre o consumo e o pagamento de dívidas.

Para a CDL Petrópolis, o cenário reforça a necessidade de diferenciar a simples retirada de um gasto do orçamento da efetiva recuperação da capacidade de consumo. A expectativa é que parte dos recursos antes destinados às apostas possa ser utilizada para despesas essenciais, regularização financeira e consumo responsável.

Medida também foi citada na ONU

A discussão sobre os efeitos econômicos e sociais das apostas ganhou espaço no debate internacional após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva abordar o tema durante seu discurso na Assembleia Geral da ONU, em 22 de setembro. Na ocasião, o presidente criticou o modelo de negócios das plataformas de apostas on-line.

A MP assinada três dias depois proibiu, em território nacional, a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa. Pela regra estabelecida, as plataformas devem deixar de operar após o período de transição previsto na própria medida. A MP, contudo, ainda está em tramitação no Congresso Nacional e já foi alvo de questionamento judicial por entidades do setor.

Para a CDL Petrópolis, a mudança também coloca em pauta temas como educação financeira, proteção do consumidor e reorganização das finanças domésticas.

“Se conseguirmos transformar uma parte do dinheiro que hoje é perdido nas apostas em consumo responsável, pagamento de compromissos e recomposição financeira das famílias, teremos um impacto que vai muito além das plataformas. É dinheiro voltando a circular”, conclui Cláudio Mohammad.