Pesquisa aponta impacto das bets no orçamento das famílias e no consumo
Uma pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil, realizada em parceria com a Offerwise, mostra que as apostas de quota fixa passaram a ocupar espaço significativo no orçamento de parte dos consumidores. Segundo o levantamento, 43% dos apostadores afirmam que já deixaram de comprar algum produto ou serviço para destinar dinheiro às apostas.
O estudo foi divulgado em 25 de setembro, mesmo dia em que entrou em vigor a Medida Provisória nº 1.394, que proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa no território nacional. A norma também estabelece medidas para o encerramento das operações autorizadas e mecanismos de fiscalização da atividade.
Para a CDL Petrópolis, os dados da pesquisa ajudam a dimensionar o possível impacto da mudança sobre o orçamento das famílias e, consequentemente, sobre o consumo no comércio e no setor de serviços.
Apostas passam a disputar espaço com despesas do dia a dia
Entre os apostadores que afirmaram ter reduzido ou deixado de fazer algum gasto para apostar, os itens mais citados foram internet, apontada por 15% dos entrevistados, contas básicas de água, luz e telefone, com 13%, passeios em família, vestuário e alimentação fora de casa, todos mencionados por 12%.
O gasto médio mensal com apostas chegou a R$ 213. O levantamento também identificou que 62% dos apostadores realizavam jogos pelo menos uma vez por semana, incluindo 11% que afirmaram apostar diariamente.
Em Petrópolis, uma projeção baseada em levantamento do IFec RJ estima que aproximadamente 63 mil moradores podem ter participado de apostas on-line. O cálculo considera a população estimada de 278 mil habitantes e a proporção de 22,7% identificada na Região Metropolitana do Rio.
Para o presidente da CDL Petrópolis, Cláudio Mohammad, os números indicam que o dinheiro destinado às apostas, em parte dos casos, deixou de ser utilizado em outras despesas.
“Existe uma parcela da renda das famílias que está deixando de cumprir outras funções”, afirmou.
Segundo ele, a expectativa é de que parte desses recursos permaneça nos orçamentos familiares e possa voltar a circular no comércio e no setor de serviços.
Endividamento também aparece entre os resultados
A pesquisa aponta ainda que 23% dos apostadores afirmaram ter destinado valores às apostas a ponto de comprometer a própria renda ou o bem-estar financeiro. Outros 25% disseram ter deixado alguma conta sem pagar para apostar, enquanto 24% relataram já ter ficado com o nome negativado por causa dos jogos on-line.
Entre os entrevistados que têm filhos com idade entre 12 e 18 anos, 10% afirmaram que os adolescentes também estavam envolvidos com bets. Nesse grupo, 70% perceberam algum tipo de prejuízo na vida dos filhos, incluindo sinais de dependência, endividamento e utilização de dinheiro da família sem autorização.
O levantamento mostra ainda que 37% dos apostadores já tentaram interromper ou reduzir a frequência das apostas, mas não conseguiram.
Número de apostadores chega a 50 milhões nas capitais
A pesquisa identificou 50 milhões de apostadores nas capitais brasileiras, aumento de 10,5 milhões em relação ao levantamento anterior. O gasto médio mensal chegou a R$ 213, enquanto o Pix aparece como principal forma de pagamento, utilizado por 78% dos entrevistados.
Com a entrada em vigor da MP nº 1.394, o cenário do setor mudou. O texto oficial determina a proibição da exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no país e prevê um período de transição para o encerramento das atividades autorizadas.
Para Cláudio Mohammad, o próximo passo será acompanhar como os recursos anteriormente destinados às apostas serão utilizados pelas famílias.
“Agora começa uma segunda etapa, que é observar o que acontece com o dinheiro que deixa de ser direcionado para as apostas”, afirmou.
Na avaliação apresentada pelo presidente da CDL Petrópolis, caso parte desse dinheiro permaneça disponível nos orçamentos familiares, os efeitos poderão aparecer na redução de dívidas e na recomposição da renda destinada ao consumo, com reflexos sobre lojas, serviços e demais segmentos da economia local.

