Bets retiram bilhões da economia e preocupam comércio diante do avanço do endividamento
O crescimento das apostas online no Brasil já ultrapassa a dimensão de um hábito individual e começa a produzir efeitos relevantes sobre a economia. Um estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da USP (Made-USP) estima que as bets tenham retirado entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025.
No mesmo período, as perdas líquidas das famílias, calculadas pela diferença entre os valores apostados e o dinheiro que retornou aos jogadores, chegaram a R$ 62,5 bilhões. Na avaliação de representantes do comércio, recursos dessa magnitude deixam de circular em setores como varejo e serviços e reduzem o impacto econômico gerado pelo consumo das famílias.
Para o presidente da CDL Petrópolis, Cláudio Mohammad, o efeito não se limita ao orçamento de quem aposta. O dinheiro gasto no comércio movimenta uma cadeia que envolve trabalhadores, fornecedores, aluguéis, transporte e arrecadação de impostos.
“Quando o dinheiro é gasto no comércio, ele não para na compra. Ele paga salários, fornecedores, aluguel, transporte, impostos e volta a circular na economia. Quando uma parcela dessa renda é desviada para as apostas, esse efeito multiplicador diminui”, afirma.
Apostas também afetam crédito e inadimplência
Os impactos financeiros sobre os próprios apostadores aparecem em levantamentos que analisaram movimentações bancárias e transações realizadas por Pix. Em um dos estudos, a proporção de inadimplentes entre os apostadores ficou, em média, 20% maior nos 12 meses posteriores ao início das apostas.
O mesmo levantamento identificou uma redução aproximada de 16% no limite de crédito disponível para esse grupo. Para o comércio, a combinação entre menor renda disponível e redução do acesso ao crédito representa uma preocupação adicional.
“Para o comércio, não existe consumo sem renda disponível e sem crédito saudável”, resume Mohammad.
A dimensão do fenômeno também aparece em pesquisa da ANBIMA, que aponta que 17% da população economicamente ativa realizou apostas online em 2025. Entre as principais razões citadas para apostar está a expectativa de obter ganhos rápidos, inclusive em situações de dificuldade financeira.
O cenário chama atenção justamente porque a busca por uma solução imediata para problemas econômicos pode acabar agravando o comprometimento da renda e aumentando a vulnerabilidade financeira dos consumidores.
Tema ganha espaço no debate público
O avanço das apostas e seus efeitos sobre o endividamento das famílias passaram a integrar as discussões no governo e no Congresso e também ganharam espaço no debate eleitoral de 2026.
Entre as propostas em discussão estão medidas para restringir publicidade e patrocínios relacionados às plataformas, além de iniciativas voltadas à limitação de depósitos e ao aumento da proteção de grupos considerados mais vulneráveis.
Para a CDL Petrópolis, porém, o enfrentamento do problema precisa ir além da regulamentação das empresas que operam as plataformas.
“O consumidor precisa perceber que renda não é apenas aquilo que entra no bolso, mas também aquilo que conseguimos preservar e transformar em consumo, patrimônio e qualidade de vida”, afirma Mohammad.
Na avaliação da entidade, a presença das apostas no debate eleitoral pode contribuir para ampliar a discussão sobre o tema, mas a busca por soluções deve continuar para além do período eleitoral. O objetivo, segundo a CDL, deve ser encontrar mecanismos capazes de proteger a renda das famílias, reduzir o endividamento e preservar a circulação de recursos na economia real.

