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Inteligência artificial amplia desafios da comunicação política nas eleições de 2026

As eleições gerais de 2026 serão realizadas em um ambiente de comunicação política ainda mais marcado pelo avanço da inteligência artificial (IA). Ferramentas capazes de produzir textos, imagens, vídeos e áudios em poucos segundos ampliam as possibilidades de criação e segmentação das campanhas, mas também aumentam os desafios relacionados à identificação de conteúdos fabricados ou manipulados.

A tecnologia já passou a fazer parte da forma como o público acessa informações. O Digital News Report 2025, do Reuters Institute for the Study of Journalism, apontou que 9% dos brasileiros entrevistados utilizavam chatbots de inteligência artificial para obter notícias. Na edição de 2026, o levantamento registrou crescimento do uso de chatbots para notícias no cenário global, de 7% para 10% dos entrevistados.

O cenário cria uma nova dimensão para a comunicação eleitoral. Além de receber conteúdos produzidos ou modificados por inteligência artificial durante a campanha, o eleitor também pode recorrer a essas ferramentas para buscar informações sobre candidatos, propostas e temas políticos.

Para Estela Siqueira, coordenadora dos cursos de Jornalismo e Publicidade da Estácio Petrópolis, o avanço da tecnologia exige que as campanhas conciliem as possibilidades oferecidas pela IA com critérios de transparência e credibilidade.

“A inteligência artificial amplia enormemente as possibilidades de criação de uma campanha. É possível produzir conteúdos mais segmentados, adaptar uma mesma mensagem para diferentes públicos e testar formatos com uma velocidade que seria impensável alguns anos atrás. Mas comunicação política não pode abrir mão da transparência. Quanto mais realista for um conteúdo sintético, maior é a responsabilidade de informar o eleitor sobre como ele foi produzido”, afirma.

Regras para o uso de IA

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estabeleceu regras específicas para o uso de inteligência artificial na propaganda eleitoral de 2026. A legislação eleitoral exige que conteúdos sintéticos produzidos ou significativamente modificados por IA sejam identificados de maneira explícita, destacada e acessível. A regra vale para diferentes formatos, incluindo textos, imagens, áudios e vídeos.

Também é proibido utilizar, para favorecer ou prejudicar uma candidatura, conteúdo sintético que altere digitalmente imagem ou voz de uma pessoa, caracterizado como deepfake. Em setembro, o TSE definiu que a caracterização do deepfake nas eleições considera, entre outros elementos, o grau de realismo ou verossimilhança do material e sua finalidade de criar, reproduzir ou modificar imagem, voz ou manifestação de uma pessoa.

Outra restrição envolve o período próximo à votação. Novos conteúdos sintéticos produzidos ou alterados por IA que utilizem imagem, voz ou manifestação de candidatos ou pessoas públicas não podem ser publicados ou republicados nas 72 horas anteriores nem nas 24 horas posteriores ao pleito.

IA também passa a mediar a informação

A preocupação não se limita ao material produzido pelas campanhas. As próprias ferramentas de inteligência artificial estão sendo utilizadas para responder a perguntas sobre o processo eleitoral, o que coloca os sistemas de IA em uma posição de mediação entre o eleitor e as informações políticas.

As regras do TSE determinam que provedores de sistemas de inteligência artificial não podem ranquear, recomendar, sugerir ou priorizar candidatos, partidos, federações ou coligações. Também não podem emitir preferência eleitoral ou recomendar voto, inclusive por meio de respostas automatizadas.

O tema já vem sendo acompanhado pelo Ministério Público Federal. Em agosto, o MPF informou que uma pesquisa realizada em parceria com o Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS) identificou respostas de ferramentas de IA que apresentavam ranqueamento ou hierarquização de candidaturas. O monitoramento passou a subsidiar reuniões com as empresas responsáveis pelos sistemas para tratar do cumprimento das regras eleitorais.

Para Estela Siqueira, essa mudança amplia o debate sobre o papel dos profissionais de comunicação e sobre a própria circulação da informação política.

“A questão deixa de ser apenas quem está produzindo a mensagem e passa a envolver também quem está mediando essa mensagem. Se o eleitor pergunta a uma inteligência artificial qual candidato seria melhor para determinado tema, estamos diante de uma nova forma de intermediação da informação política. Isso traz uma discussão importante para o Jornalismo, a Publicidade e também para a própria democracia”, explica.

Tecnologia exige novos cuidados na comunicação

A inteligência artificial pode ser utilizada pelas campanhas em atividades como análise de dados, planejamento, criação de diferentes versões de uma peça publicitária e adaptação de mensagens para públicos específicos. O uso dessas ferramentas, porém, está submetido às normas eleitorais quando envolve propaganda política.

Para a coordenadora, a expansão da IA também modifica as responsabilidades de jornalistas, publicitários e demais profissionais envolvidos na comunicação.

“Publicidade e Jornalismo passam a ter uma responsabilidade ainda maior na verificação da origem dos conteúdos, na identificação de manipulações e na distinção entre criatividade e fraude. A tecnologia não elimina o trabalho do comunicador; ao contrário, exige profissionais ainda mais preparados para compreender como essas ferramentas funcionam e quais são seus impactos”, destaca.

Com a comunicação digital ocupando espaço relevante nas campanhas, as eleições de 2026 colocam a inteligência artificial no centro de uma discussão que envolve produção, distribuição e consumo de informação. O desafio passa não apenas pela capacidade de criar conteúdos em alta velocidade, mas também pela possibilidade de verificar sua origem e autenticidade.

Para Estela, a credibilidade tende a ganhar importância nesse ambiente de comunicação.

“A disputa não será apenas pela atenção do eleitor, mas também pela confiança. Em um ambiente no qual já não podemos ter certeza de que uma imagem, uma voz ou um vídeo corresponde ao que realmente aconteceu, credibilidade passa a ser um patrimônio fundamental da comunicação política.”