Taxa de Turismo Sustentável em Angra gera debate entre preservação ambiental e impactos no setor turístico
A obrigatoriedade da emissão do voucher da Taxa de Turismo Sustentável para visitantes de Angra dos Reis inaugurou uma nova etapa do programa Viva Angra – Sistema Digital de Turismo e reacendeu o debate sobre os limites entre preservação ambiental e desenvolvimento econômico. A medida, que passou a valer de forma ampliada nesta semana, exige que todos os turistas que acessam o município realizem o cadastro e emitam o voucher correspondente, incluindo aqueles que chegam por embarcações partindo de outras cidades.
A Prefeitura de Angra dos Reis defende a iniciativa como uma ferramenta fundamental para a gestão sustentável do turismo, especialmente em áreas de grande sensibilidade ambiental, como a Ilha Grande. Segundo a administração municipal, os recursos arrecadados serão destinados à melhoria da infraestrutura turística, preservação ambiental, ordenamento urbano e monitoramento do fluxo de visitantes.
No entanto, a medida vem provocando reações entre comerciantes, moradores e representantes do setor turístico. Críticos argumentam que a cobrança pode representar um obstáculo ao turismo, principalmente para visitantes que realizam passeios de curta duração, além de gerar dúvidas em relação às regras e valores aplicados.
Pelas normas estabelecidas, o acesso às ilhas exige o pagamento de uma taxa de R$ 50, válida por 30 dias. O mesmo valor é cobrado dos turistas que embarcam em outros municípios e permanecem pelo menos duas diárias em hospedagens legalizadas de Angra dos Reis. Caso não haja comprovação da hospedagem, o valor sobe para R$ 100.
Para os visitantes de day use, que não pernoitam na cidade, foi criada uma regra transitória válida até junho de 2027. Quem embarca pela Estação Santa Luzia paga R$ 28, enquanto os turistas que utilizam embarcações partindo de outros municípios pagam R$ 50, desde que apresentem reserva em estabelecimentos gastronômicos legalizados de Angra.
A complexidade das regras tem sido alvo de críticas por parte de empresários e prestadores de serviços. Muitos afirmam que a diferenciação de valores e exigências pode gerar insegurança e confusão entre os visitantes, afetando a competitividade do destino turístico.
Nas redes sociais e fóruns de viagens, turistas também manifestaram insatisfação com a cobrança adicional. Entre os principais questionamentos estão o custo da taxa somado às despesas com transporte marítimo, hospedagem e alimentação, além da percepção de que a cobrança foi implementada sem ampla divulgação prévia.
Comerciantes da Vila do Abraão e de outras localidades da Ilha Grande relatam preocupação com possíveis impactos sobre o turismo de curta duração, modalidade responsável por uma parcela significativa do movimento econômico local. Segundo representantes do setor, famílias e grupos com orçamento mais restrito podem reconsiderar visitas diante do aumento dos custos da viagem.
A discussão também chegou ao meio político. Integrantes da oposição na Câmara Municipal anunciaram a intenção de analisar a legalidade da cobrança, alegando possíveis conflitos com princípios relacionados ao livre acesso às praias e áreas públicas.
Por outro lado, a Prefeitura sustenta que o programa segue exemplos adotados em destinos turísticos nacionais e internacionais que enfrentam desafios relacionados à preservação ambiental e à superlotação. O município argumenta que o controle do fluxo turístico é necessário para garantir a sustentabilidade de áreas naturais e a manutenção da qualidade dos serviços oferecidos aos visitantes.
O programa prevê ainda isenção para diversos grupos, incluindo moradores de Angra dos Reis, parentes de até segundo grau dos residentes, idosos com mais de 60 anos, crianças de até 12 anos, pessoas com deficiência e prestadores de serviço cadastrados. Para ter acesso à gratuidade, é necessário realizar cadastro prévio na plataforma Viva Angra e emitir a carteirinha digital correspondente.
Enquanto o município aposta na medida como instrumento de gestão e preservação ambiental, representantes do setor turístico aguardam os próximos meses para avaliar seus efeitos sobre o fluxo de visitantes e a economia local. O comportamento do mercado e a receptividade dos turistas deverão indicar se o modelo precisará de ajustes ou se conseguirá equilibrar conservação ambiental e atividade econômica em um dos principais destinos turísticos do litoral fluminense.

